sábado, 30 de abril de 2011

Alice no país das maravilhas e administração

A obra Alice no país das maravilhas, um conto infantil, revela vários aspectos administrativos se abordada a partir de conceitos extraídos do cotidiano da administração de empresas. Lições e exemplos sobre aspectos institucionais como administração do tempo e de negócios, regras e normas, padrões de procedimento, localização de empresas, crescimento das organizações e suas conseqüências, missão e visão, consultoria, produtos, funções e cargos estão incluído nas linhas e entrelinhas do livro. Há também uma forte e concreta designação sobre aspectos de relacionamentos internos e externos como concorrência, técnicas de vendas, marketing, clima organizacional, importância de decisões tomadas, comunicação e seus ruídos, liderança, hierarquia, atenção e concentração, medo e motivação, como questionar a organização estrutural de uma empresa e moral.
Logo no primeiro parágrafo, Alice revela seu desprezo pelo livro que sua irmã lê por esse não conter figuras ou diálogos, o livro era pouco atrativo para ela porque não havia cores, ou se houvesse sua forma de sua exposição impossibilitara a visão desses itens. Levando em consideração o marketing do produto, esses aspectos sem dúvida alguma influenciam na decisão de compra. Após ter caído na toca do coelho, Alice encontrou uma garrafa sobre a mesa que continha a “palavra ‘BEBA-ME’ lindamente impressa em letras grandes” chamando a sua atenção e, passado algum tempo, encontrou um bolo dentro de uma caixa em cima da mesa no qual havia “lindamente inscrito a palavra COMA-ME” afirmando que a apresentação do mix de produtos deve ser esteticamente agradável e deve também ser coerente com seu público-alvo. Lembrando que a necessidade de consumir e a qualidade do produto são vertentes que estabelecem a relação de consumo, a obra descreve tal relação no momento em que é encontrada outra garrafa, essa dentro da casa do coelho, que não continha nenhuma palavras impressa nela e mesmo assim Alice já sabia quais as qualidades e as conseqüências antes mesmo de ingerir o conteúdo da garrafa, ou seja, já conhecia o produto e por isso o tomou (comprou). Essa visão de atratividade serve para o produto e também para a empresa, como é descrito no livro, na casa do coelho havia uma placa de latão bem brilhante como o nome “C. BRANCO”, identificando de maneira sucinta para quem observasse aquele local onde era a casa do coelho branco.
O desprezo pelo livro da irmã também revela a má vontade em relação à capacitação e ao conhecimento. O fato é constatado novamente quando diz “então... ter sempre que estudar! Oh eu não gostaria disso”. Em contraposição Chiavenato (2004, p. 467) descreve: “Na era da informação o recurso mais importante deixou de ser o capital financeiro para ser o capital intelectual, baseado no conhecimento”.
A caída de Alice na toca do coelho pode ser interpretada como um profissional aplicado e motivado que procura conhecer as especificidades da empresa onde trabalha, seus organogramas (quadros), seus procedimentos padrões (mapas) e seus produtos (geléia de laranja). Alice desejava saber quais as regras do local para onde estava descendo, enfatizando a importância das leis, regras e normas para estabelecer o equilíbrio social dos ambientes externos e internos da organização. Lembrava-se sobre as regras que seus amigos lhe falavam sobre queimar-se com lareira, cortar o dedo com a faca e beber veneno. Questionou-se sobre a bagunça gerada pela ausência ou pelo desrespeito às regras no jogo de críquete, gerando confusão, pois ninguém sabia a hora exata de jogar, e desordem que, para Morim (1990, p. 129) é tudo que é irregularidade, desvio em relação a uma estrutura, aleatório, imprevisibilidade e favorece a ineficiência, palavra que não deve existir no meio administrativo para se obter sucesso.    
 Ainda na caída, a instigadora criança levanta a preocupação com sua localização (latitude e longitude), o que de fato, é super importante para o empreendimento dar certo. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE – defende que para definir a localização da unidade de negócio, o empreendedor deve basear-se em dados concretos. Deve concentrar seus esforços na pesquisa de informações sobre os clientes, fornecedores, concorrentes, infra-estrutura e logística.
A administração do tempo, primeiramente relatada no atraso do coelho, é abordada de maneira eficiente no decorrer da história. Alice aconselha o chapeleiro sobre como deve ser gasto o tempo, definindo que este deveria ser estruturado de acordo com tarefas necessárias e primordiais ao invés de ser gasto com atividades supérfluas, esse conceito é enfatizado na apreciação da Administração Científica com o estudo dos tempos e movimentos e a O.R.T. – Organização Racional do Trabalho. No livro o chapeleiro reclama que sempre são seis horas da tarde e nunca tem tempo de lavar as louças do chá gerando desorganização na mesa, um exemplo para a má administração do tempo. Em outra situação como no jogo de críquete, os atrasos causam demissões decretadas pela rainha (cortem-lhe a cabeça). Ao se atrasar ou faltar ao serviço, de forma injustificada (ou seja, sem ser por motivo de enfermidade, de comparecimento ao médico, de presença perante a autoridade policial ou judiciária etc. - conforme o rol de situações exposto artigo 473 da C.L.T.), o empregado comete uma falta que, dependendo de sua reiteração e gravidade, poderá ensejar as penalidades de “advertência”, “suspensão” ou, mesmo, em caso mais extremo, a “demissão por justa causa”, por “desídia no desempenho das respectivas funções”, nos termos do artigo 482, alínea “e”, da Consolidação das Leis do Trabalho.
Há características bastante relevantes ao administrador na personalidade de Alice como a capacidade de auto-reflexão, criatividade, a sua curiosidade, que no decorrer do tempo ela vive perguntando os porquês das situações, se mete em outras sem saber como sairá apenas para conhecer, explorar o inexplorado, questiona sobre a organização do jogo de críquete, estabelece conceitos a partir de novos experimentos, questiona sobre o sorriso do gato e a partir de sua curiosidade estabelece diálogos interativos que podem ser vistos como técnica de vendas. Para Linda Richardson (2006, p. 10), o vendedor deve ter o método consultivo (curiosidade) de conhecer o cliente para poder argumentar eficazmente sobre o produto ou serviço ao qual quer vender. É o que faz Alice ao perguntar ao rato se ele gosta de cachorros e após a pergunta argumenta porque o rato deveria gostar.
 A capacidade de relacionar-se com inúmeros e indiferentes animais revela outra característica de Alice importante ao administrador. A sonhadora por inúmeras vezes esteve aberta a diálogos que para Schrijvers (2005, p. 30), para ser bom com diálogos deve-se fazer com que as pessoas contem mais do que planejam dizer. Seus relacionamentos envolvem desde preocupação com seus pupilos, como a preocupação por Dinah (gata), até disponibilidade de servir, ajudar aos outros, colocar-se no lugar das pessoas, mostrando seu lado humanístico, que todo bom administrador deve ter.
O crescimento da empresa e suas conseqüências são relatados praticamente em todos os capítulos. A menina por várias vezes sentiu necessidade de crescer e diminuir, para se adequar a alguma situação, e sempre encontrava uma forma de satisfazer sua necessidade. Por certas vezes crescia tanto ou diminuía demais ao ponto de sofrer conseqüências como não poder pegar a chave em cima da mesa após ter bebido o conteúdo da garrafa, o lago de lagrimas que resultou de um choro, ser confundida pela pomba por parecer ser uma serpente (que pode ser interpretada como a concorrência das empresas que estão em crescimento), derrubar todos os que participavam do julgamento ao tentar levantar e diminuir tanto que não pode nem ao menos abrir a boca por está bem próxima dos pés.
A tomada de decisões é abordada de maneira sistêmica em reuniões promovidas pelos animais para decidir sobre o futuro, assim como na administração o livro está permeado de decisões, o líder (rato) junto com seus liderados (Dodô) propõe soluções ao problema de estarem todos molhados, Alice, uma verdadeira tomadora de decisões, por sua vez pensa rápido e imediatamente após a indicação sobre a premiação da corrida oferece prêmios aos seus companheiros. Essa vive tomando decisões como forma de estratégia, como a escolha feita na hora de comer um dos lados do cogumelo para saber qual seria a correta para ela crescer e o caminho que decidira trilhar após o gato ter lhe dado alternativas. Suas decisões inferem diretamente em seus objetivos e metas, algumas vezes até oscilando em relação a sua visão que era de entrar no jardim. Ressaltando que dentro das organizações quanto o maior é o numero de informações sobre determinado problema, melhor será a decisão tomada.
A hierarquia adotada pela rainha é autocrática, soberana e absoluta, que utiliza a imposição do medo (cortem-lhe a cabeça) como forma de conseguir seus objetivos, mas, acaba sendo superada quando Alice rebela-se entra em conflito por saber que são apenas cartas de baralho. Na gestão autocrática o conselho de manter a calma da lagarta é essencial. A imposição do medo gera um clima organizacional pesado como é mostrado no caso dos lagarto que pintam as rosas, eles vivem em constantes conflitos A questão primordial nessa situação é ver o modelo de gestão autoritário (rainha) sendo vencido por uma gestão participativa, humanística (A garota). 
A primeira publicação do livro em 1865, há mais de um século atrás, faz alusão a um problema das empresas contemporâneas: a inclusão de pessoas com deficiência física no mercado de trabalho. A menina, que participava do julgamento sobre quem teria roubado as tortas, foi ordenada pelo rei e pela rainha a se retirar do recinto por parecer ser maior que um quilômetro e meio, descriminação que levava em conta o aspecto físico de Alice. Há certa dificuldade de algumas empresas em incluir pessoas com deficiência por esbarrarem em descriminação do passado onde deficientes com freqüência eram excluídos, pela própria família, do ensino com qualidade e do convívio social, mas, desde 1991, a lei Nº 8.213 obriga empresas a ter em seu quadro funcional cotas de 2% a 5% destinadas a deficientes. As cotas são indiferentes à deficiência do portador.